Panorama ESG Brasil 2023-2026: Análise Estratégica e Interpretação de Tendências

A série histórica (2023 e 2026) do Panorama ESG Brasil – publicada pela AmCham em parceria com a Humanizadas – não documenta apenas a evolução de indicadores. Ela registra uma transição de fase: o mercado brasileiro passou de um estágio de engajamento retórico e adesão voluntária para um estágio de pressão por conformidade e justificativa financeira. A pergunta que organiza o debate nos conselhos mudou. O que antes era “devemos fazer ESG?” converteu-se em “quanto estamos deixando de capturar por não saber medir?” Essa mudança não é cosmética, mas o mercado ainda não construiu a infraestrutura necessária para respondê-la.

O número mais revelador do Panorama 2026 não é o 87% de empresas que afirmam atuar em sustentabilidade. É o gap de 40 pontos entre as 74% que reconhecem valor reputacional e as 34% que conseguem demonstrar retorno financeiro de forma estruturada. Esse intervalo representa o tamanho do trabalho que ainda precisa ser feito antes que sustentabilidade se torne, de fato, uma variável de alocação de capital. Enquanto essa lacuna persistir, a agenda permanecerá dependente do comprometimento pessoal de líderes e vulnerável à primeira pressão de curto prazo que exija redução de despesas não essenciais.

Há uma sequência lógica que a maioria das empresas ainda não percorreu: identificar o que é material para o negócio e seus stakeholders, mapear riscos e oportunidades com cifra associada, e então construir o caso de negócio da sustentabilidade em linguagem financeira. Os dados de 2026 mostram que 73% das empresas não possuem ou não atualizam sua Matriz de Materialidade, 68% não publicam Relatório de Sustentabilidade e 61% não realizam benchmarking setorial. Não se trata de falta de vontade: é falta de metodologia e, em muitos casos, ausência de demanda interna real. O CFO e o conselho ainda não cobram essa agenda com a mesma intensidade que cobram indicadores financeiros convencionais.

O pico sistemático de 2025 em praticamente todos os indicadores precisa ser tratado como sinal analítico, não como conquista. A COP30 realizada no Brasil produziu o que se poderia chamar de inflação de autodeclaração: empresas que já operavam em um determinado patamar passaram a se representar de forma mais ambiciosa, respondendo ao contexto institucional e às expectativas de mercado. A correção de 2026, que a própria pesquisa interpreta como sinal de maturidade, é metodologicamente mais honesta. O mercado está, ao menos, aprendendo a calibrar o que significa realmente fazer sustentabilidade com rigor. A tendência real, medida pela comparação entre 2024 e 2026, mostra avanço consistente, mas modesto. O que não é pouco, considerando o ponto de partida.

A composição do mapa de materialidade de 2026 merece atenção específica porque contradiz o discurso público dominante. Inovação e Tecnologia lidera com 58%, seguida por Ética e Governança e Experiência do Cliente. Mudanças Climáticas e Emissões de GEE aparecem apenas na décima terceira posição, e Biodiversidade ocupa a última colocação com 8% de relevância média entre impacto financeiro e impacto em stakeholders. Isso ocorre logo após o ano da COP30 no Brasil, o país com maior biodiversidade do planeta e uma das maiores reservas de carbono natural do mundo. A distância entre esse ativo estratégico e sua percepção pelas lideranças empresariais não é apenas uma falha de priorização: é uma proxy do risco futuro. À medida que regulações de TNFD, SBTN e taxonomias verdes avançam internacionalmente, empresas que não desenvolveram competência em biodiversidade serão progressivamente excluídas de cadeias globais de valor e de instrumentos de capital verde.

O perfil da agenda regulatória em 2026 é, ao mesmo tempo, pragmático e limitante. NR-01 domina com 42% porque tem prazo, sanção e mecanismo de fiscalização estabelecido. IFRS S1/S2 aparece em quarto lugar com 21%, resultado que deve ser lido à luz do fato de que apenas 16% das empresas já utilizam padrões contábeis sustentáveis em qualquer forma. A maioria das organizações que precisará adotar IFRS S1/S2 sequer construiu os dados primários que esses padrões exigem. O calendário regulatório e a capacidade de resposta do mercado estão em trajetórias divergentes. Para firmas de asseguração, consultores e prestadores de serviços especializados, esse descompasso representa uma janela de demanda previsível e crescente.

A heterogeneidade setorial, sistematicamente subestimada pela pesquisa dada a sub-representação do agronegócio e do varejo, é provavelmente a variável mais importante para qualquer análise de risco. No Panorama 2026, o agronegócio reporta mudanças regulatórias como o principal risco (53%) e eventos climáticos extremos como relevantes para 38% dos respondentes, percentual o dobro da média do mercado. Cadeia de suprimentos concentra 39% da preocupação industrial ante 12% no setor de serviços. Essas diferenças não são nuances: são perfis de risco fundamentalmente distintos que exigem abordagens ESG e métricas completamente diferentes. Qualquer política interna ou exigência de cadeia de suprimentos que ignore essa heterogeneidade é teoricamente elegante e praticamente inútil.

Ao longo dos quatro anos da série, a governança é consistentemente o pilar com maior consolidação prática. Em 2026, transparência, ética e anticorrupção lideram as práticas incorporadas com 61%, sustentabilidade integrada à estratégia aparece com 59% e privacidade e segurança de dados lidera com 67%. O pilar ambiental, especialmente em sua dimensão quantitativa, permanece estruturalmente frágil: 71% das empresas não reduzem nem compensam emissões de GEE, acesso a capital verde está presente em apenas 10% das práticas e precificação de carbono em 7%. Essa assimetria entre governança forte e ambiental fraco não é acidente: governança tem regulação estabelecida, fiscalização real e impacto reputacional imediato. Ambiental depende de infraestrutura de dados, capacidade técnica e, fundamentalmente, de precificação que o mercado brasileiro ainda não internalizou.

O dado sobre a COP30 merece uma leitura desapaixonada. 54% dos executivos reconhecem que o evento fortaleceu a imagem do Brasil globalmente. Mas apenas 37% converteram esse capital em oportunidade concreta, e as oportunidades capturadas concentram-se em posicionamento institucional, uma categoria que, com raras exceções, não aparece em demonstrações de resultado. O Brasil saiu da COP30 com mais visibilidade e com o mesmo problema de fundo: a incapacidade de traduzir vantagens comparativas naturais em fluxos financeiros verificáveis. A oportunidade estratégica não expirou, mas ela tem janela temporal. Enquanto outros países avançam em regulação de crédito de carbono, biodiversidade e taxonomias, o Brasil pode perder a liderança de posicionamento que conquistou.

A questão de governança que emerge de forma mais estratégica para o nível de conselho em 2026 não é o clima, não é a biodiversidade e nem mesmo o IFRS S1/S2. É a ausência de mecanismos que conectem metas de sustentabilidade a remuneração executiva e a alocação interna de capital. Os próprios respondentes indicam isso quando citam, entre os fatores críticos de sucesso, o engajamento de lideranças intermediárias e a vinculação de bônus a resultados mensuráveis de sustentabilidade. O engajamento de CEOs, que em 2023 alcançava 82% de consenso sobre sua liderança necessária, não se traduziu em estrutura de incentivos. A agenda foi delegada para áreas de sustentabilidade que, em muitas empresas, representam apenas 4% dos respondentes nesta pesquisa e operam sem orçamento nem poder formal para influenciar decisões de alocação.

Concluindo a leitura da série, o mercado brasileiro de ESG está mais maduro do que em 2023, menos maduro do que o pico de 2025 sugeria e mais pressionado do que o conforto dos indicadores de adesão faz parecer. A próxima fase da agenda no Brasil não será decidida por consciência ou convicção. Será decidida por regulação, por exigências de cadeias globais de suprimentos e, progressivamente, por investidores que exigirão comprovação antes de alocação. As empresas que construírem agora a infraestrutura básica (materialidade, monitoramento de riscos, métricas financeiras atreladas à agenda) estarão em posição competitivamente superior não porque são mais sustentáveis no plano moral, mas porque terão os dados para justificar decisões, acessar capital e responder a reguladores. O restante apagará incêndios.

Fontes: Panorama ESG Brasil / Panorama Sustentabilidade 2023, 2024, 2025 e 2026. Amcham Brasil & Humanizadas. Amostras de 574 (2023), 687 (2024), 401 (2025) e 587 (2026) executivos, com margem de erro de ±5% e grau de confiança de 95%.

Gabriel Buzzi, Sócio de Risco e Sustentabilidade da Baker Tilly

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