Instalação tem capacidade para fornecer até 20 mil metros cúbicos de biometano por dia e reforça a discussão sobre infraestrutura, logística e alternativas para reduzir emissões no transporte rodoviário pesado.
O uso do biometano no transporte pesado ganhou uma nova aplicação em São Paulo com a inauguração de uma estação própria de abastecimento na base da Ultragaz em Paulínia, no interior do estado.
Inaugurada em 18 de agosto, a estrutura possui capacidade máxima para fornecer 20 mil metros cúbicos de biometano por dia, volume suficiente para abastecer até 200 caminhões diariamente. Inicialmente, o combustível será utilizado em veículos envolvidos na logística de distribuição de GLP da companhia.
A iniciativa chama atenção para um dos desafios relacionados à descarbonização do transporte rodoviário pesado: além da disponibilidade de veículos e combustíveis alternativos, a transição depende também de infraestrutura de abastecimento compatível com as rotas e as operações logísticas.
Biometano entra na logística de veículos pesados
O biometano é produzido a partir da purificação do biogás gerado por matéria orgânica, como resíduos agropecuários, resíduos sólidos urbanos, esgoto e subprodutos industriais.
Depois do processamento, apresenta características semelhantes às do gás natural e pode ser empregado tanto em processos industriais como no abastecimento de veículos, desde que sejam atendidos os requisitos técnicos aplicáveis.
No caso da estação de Paulínia, o biometano será utilizado na movimentação rodoviária do próprio GLP.
A operação atendida pela base alcança aproximadamente 6 mil clientes empresariais por mês no interior paulista. Entre janeiro e abril de 2026, mais de 9,3 mil toneladas de GLP foram transportadas nessa operação, segundo informações fornecidas pela empresa à Exame.
Assim, a mudança ocorre no combustível utilizado pelos caminhões, sem alteração do produto transportado.
Redução de emissões depende da escala da operação
A estimativa divulgada pela Ultragaz é de que o projeto possa evitar aproximadamente 960 toneladas de CO₂ equivalente por ano em emissões diretas de suas operações.
É importante observar, porém, que a capacidade de 200 abastecimentos por dia representa o potencial máximo da estação. A quantidade inicial de veículos que utilizarão o combustível não foi informada.
Da mesma forma, o impacto efetivo sobre as emissões dependerá de fatores como utilização da infraestrutura, quilometragem percorrida, consumo da frota e origem do biometano utilizado.
Essa distinção é relevante porque projetos de descarbonização precisam ser avaliados não apenas pela capacidade instalada, mas também pelo uso efetivo dos ativos e pelos resultados mensurados ao longo da operação.
Infraestrutura é parte do desafio do biometano
A expansão do combustível envolve uma questão logística particular.
Diferentemente de combustíveis com redes de abastecimento amplamente disponíveis, projetos de biometano precisam considerar a distância entre a produção, o transporte do gás e o local de consumo.
Em estudo publicado em junho de 2026, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) analisou justamente a movimentação de gás natural comprimido e biometano por caminhões, incluindo custos, logística e emissões de gases de efeito estufa.
A EPE observa que soluções de transporte rodoviário podem funcionar como alternativa em regiões não atendidas diretamente por gasodutos, permitindo conectar produtores de biometano a consumidores localizados em outros pontos do território.
Essa característica torna o planejamento logístico parte relevante da viabilidade econômica de novos projetos.
Quanto maior a distância entre produção e consumo, por exemplo, maior tende a ser a influência do transporte sobre custos e emissões associadas à cadeia.
Mercado passa por atualização regulatória
O avanço de projetos ocorre ao mesmo tempo em que a regulamentação brasileira para o biometano passa por novas definições.
Em agosto de 2026, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) aprovou uma nova resolução para consolidar as regras de especificação e controle da qualidade do biometano, independentemente da origem da matéria-prima.
A regulamentação procura estabelecer requisitos técnicos comuns para um mercado que vem incorporando projetos provenientes de diferentes fontes de resíduos.
Outra frente regulatória é o Programa de Incentivo ao Biometano, previsto na Lei do Combustível do Futuro.
Para 2026, o Conselho Nacional de Política Energética estabeleceu uma meta inicial de redução de 0,5% das emissões do mercado de gás natural por meio da participação do biometano.
O ambiente regulatório, portanto, começa a avançar paralelamente à expansão da oferta e das aplicações do combustível.
Transporte pesado busca diferentes rotas de descarbonização
A utilização do biometano também precisa ser entendida dentro de um conjunto mais amplo de alternativas disponíveis para o transporte.
Dependendo da operação, distância percorrida, disponibilidade de infraestrutura e características da frota, empresas podem avaliar diferentes soluções, incluindo eletrificação, biocombustíveis líquidos, biometano e melhorias de eficiência logística.
Não existe necessariamente uma única tecnologia adequada para todas as aplicações.
No transporte pesado, fatores como autonomia, capacidade de carga, tempo de abastecimento e disponibilidade de combustível ao longo das rotas influenciam diretamente a escolha.
Por isso, projetos como a estação de Paulínia também funcionam como referência prática para avaliar a operação do biometano em rotas reais e em frotas que percorrem grandes volumes de quilômetros.
Da disponibilidade do combustível à viabilidade econômica
A expansão do biometano no transporte dependerá de uma combinação de fatores.
Oferta do combustível, localização das plantas produtoras, infraestrutura de abastecimento, aquisição ou adaptação da frota, contratos de fornecimento e custo total de operação precisam ser analisados conjuntamente.
Para empresas de logística e organizações com grandes frotas, a decisão tende a envolver tanto metas de emissões como critérios tradicionais de investimento.
Isso inclui CAPEX, custo do combustível, manutenção, disponibilidade operacional, previsibilidade de fornecimento e retorno financeiro.
O avanço de novas estações mostra que a discussão sobre descarbonização do transporte começa a sair do campo exclusivamente tecnológico para uma questão mais ampla de infraestrutura e modelo econômico.
Nesse contexto, o biometano passa a ser uma das alternativas em avaliação para operações nas quais produção, abastecimento e consumo possam ser conectados de maneira técnica e financeiramente viável.
Fontes pesquisadas
Exame — 19/08/2026
“Ultragaz abre 1ª estação própria de biometano para abastecer até 200 caminhões por dia”, por Letícia Ozório. Fonte principal para os dados da estação, capacidade de abastecimento, operação atendida e estimativa de redução de emissões.
Empresa de Pesquisa Energética (EPE) — 26/06/2026
“Transporte de Gás Natural Comprimido – Estudo de Caso do Biometano no Brasil”. Estudo sobre logística, custos e emissões associados ao transporte do combustível até os pontos de consumo.
Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) — 07/08/2026
Nova regulamentação sobre especificação e controle da qualidade do biometano no Brasil.
Ministério de Minas e Energia / CNPE — 01/04/2026
Definição da meta de redução de 0,5% das emissões do mercado de gás natural em 2026 por meio da ampliação da participação do biometano.
Ministério de Minas e Energia — 03/07/2026
Material técnico sobre produção, origem e aplicações do biometano no Brasil.
