Indicadores de gestão de resíduos e o desenvolvimento de alimentos com proteína de insetos mostram como a indústria pet começa a incorporar circularidade também às decisões sobre matérias-primas e produtos.
A economia circular começa a aparecer em diferentes etapas da indústria de alimentação animal, desde a destinação dos resíduos industriais até a escolha de novas fontes de proteína.
Um exemplo recente vem da Special Dog Company. Segundo reportagem publicada pela Exame em 20 de agosto, a fabricante encerrou 2025 com indicadores próximos de 100% de aproveitamento dos resíduos de sua operação e lançou no mercado brasileiro um alimento para cães produzido com proteína da mosca-soldado-negro (Black Soldier Fly).
As duas iniciativas abordam dimensões diferentes da mesma discussão: como reduzir perdas de materiais dentro das operações e, ao mesmo tempo, avaliar alternativas para insumos tradicionalmente utilizados na cadeia produtiva.
Gestão de resíduos se aproxima da meta de aterro zero
A reportagem da Exame informa que 99,98% dos resíduos gerados pela companhia foram desviados de aterros sanitários em 2025.
Os dados divulgados pela própria empresa, porém, trazem uma distinção metodológica importante.
Em sua página de gestão ambiental, a Special Dog informa um Índice de Reciclagem Real de 99,98%, calculado considerando materiais passíveis de reciclagem. Já o Índice Geral de Reciclagem, que considera todos os resíduos registrados no período, foi de 99,10%.
A diferença é relevante para a análise de indicadores ambientais, porque percentuais de reciclagem ou desvio de aterros podem utilizar bases de cálculo distintas.
Para empresas que divulgam metas de circularidade, portanto, além do percentual alcançado, tornam-se importantes critérios como escopo, metodologia, tipos de resíduos considerados e destinação final.
A companhia estabeleceu como meta implementar um modelo de negócio circular e desviar de aterros 100% dos resíduos sólidos gerados até 2030, com exceção daqueles cuja disposição em aterro seja determinada pela legislação.
Circularidade envolve diferentes destinos
A gestão de resíduos não depende de uma única solução.
No caso apresentado pela empresa, resíduos orgânicos do refeitório são encaminhados para compostagem e convertidos em adubo. Há ainda iniciativas envolvendo reaproveitamento de uniformes e coleta de embalagens plásticas pós-consumo.
Essa combinação exemplifica um princípio da economia circular: materiais diferentes exigem rotas diferentes.
Reciclagem, compostagem, reutilização e redução na fonte podem fazer parte da mesma estratégia, desde que a destinação esteja tecnicamente adequada às características de cada material.
Para as empresas, isso também aumenta a importância da rastreabilidade dos resíduos, da documentação dos fornecedores envolvidos e de indicadores que permitam acompanhar a destinação ao longo do tempo.
Proteína de insetos entra na formulação de alimentos para cães
Outra frente apresentada pela companhia está na escolha das matérias-primas.
Em 2025, a Special Dog lançou a linha Bionatural Sensitive, que utiliza farinha produzida a partir da mosca-soldado-negro como fonte proteica. Segundo a empresa, trata-se do primeiro alimento completo da categoria Super Premium produzido no Brasil utilizando essa proteína.
A utilização de insetos em alimentação animal vem sendo estudada como uma possível alternativa a fontes proteicas convencionais.
Um dos fatores de interesse é a possibilidade de produzir biomassa utilizando determinados subprodutos e resíduos orgânicos como alimentação dos insetos, criando novas rotas de aproveitamento de materiais.
Porém, isso não significa que toda proteína de insetos apresente automaticamente menor impacto ambiental.
Impacto ambiental depende de como a proteína é produzida
Estudos de Avaliação de Ciclo de Vida mostram que o resultado ambiental da proteína de mosca-soldado-negro varia significativamente de acordo com fatores como origem da alimentação dos insetos, energia utilizada, processamento e destinação dos resíduos do processo.
Uma análise publicada no periódico Resources, Conservation & Recycling, por exemplo, encontrou cenários nos quais a proteína de insetos apresentava impacto superior ao da farinha de soja ou de peixe, especialmente devido ao consumo de energia e ao tipo de alimentação utilizado na criação.
Outros estudos mostram resultados mais favoráveis quando as larvas são alimentadas com determinados resíduos ou subprodutos, reforçando que a avaliação precisa considerar todo o ciclo de vida e não apenas a origem alternativa da proteína.
No caso do produto da Special Dog, a própria Exame faz essa ressalva.
A empresa afirma que a matéria-prima utilizada pode gerar até 78% menos emissões de gases de efeito estufa em comparação com farinha de vísceras de aves, mas a reportagem destaca que as informações disponíveis não permitem verificar detalhadamente as premissas e a metodologia utilizadas para chegar a esse percentual.
Por isso, o dado deve ser entendido como uma estimativa divulgada pela companhia, e não como uma redução aplicável de forma geral a toda proteína produzida a partir de insetos.
Avaliação de ciclo de vida ganha relevância
A própria fabricante informa que utilizou estudos de Avaliação de Ciclo de Vida (ACV) no desenvolvimento do alimento, em parceria com a Universidade Estadual de Maringá.
A metodologia permite analisar impactos associados a diferentes etapas de um produto, desde a obtenção das matérias-primas até sua fabricação.
Esse tipo de análise tende a ganhar importância à medida que empresas buscam comparar matérias-primas alternativas.
Uma substituição aparentemente mais sustentável pode gerar impactos em outras etapas da cadeia, seja pelo consumo energético, transporte, processamento ou uso de recursos naturais.
A circularidade, portanto, exige uma visão mais ampla do que simplesmente substituir um material por outro.
Economia circular chega ao desenho do produto
O caso ajuda a mostrar uma evolução da discussão sobre resíduos.
Em uma primeira etapa, empresas normalmente concentram esforços naquilo que sai das fábricas: redução, reciclagem e destinação dos materiais descartados.
Uma abordagem mais abrangente também observa aquilo que entra no processo produtivo.
Matérias-primas, origem dos insumos, quantidade de recursos utilizados, embalagens e possibilidade de reaproveitamento passam a integrar a análise.
Para a indústria pet, essa discussão pode envolver ingredientes, embalagens e resíduos gerados tanto na fabricação quanto após o consumo.
Nesse contexto, economia circular deixa de ser apenas uma política de gestão de resíduos e passa a influenciar também desenvolvimento de produtos, inovação, cadeia de suprimentos e decisões de investimento.
O principal desafio está em garantir que os benefícios ambientais associados a essas escolhas sejam mensurados com metodologias comparáveis e transparentes, permitindo avaliar não apenas iniciativas isoladas, mas seus impactos ao longo de todo o ciclo de vida.
Fontes pesquisadas
Exame — 20/08/2026
“Special Dog desvia 99% dos resíduos de aterros e aposta em proteínas de moscas para pets”, por Letícia Ozório. Fonte principal sobre os indicadores de 2025 e o uso da proteína de mosca-soldado-negro.
Special Dog Company — Gestão de resíduos sólidos
Dados consolidados de dezembro de 2025 sobre Índice de Reciclagem Real de 99,98%, Índice Geral de Reciclagem de 99,10% e meta de desvio de aterros para 2030.
Special Dog Company — 26/08/2026
Informações técnicas sobre o alimento desenvolvido com farinha de mosca-soldado-negro e utilização de Avaliação de Ciclo de Vida no desenvolvimento da formulação.
Resources, Conservation & Recycling — 2023
Estudo de Avaliação de Ciclo de Vida sobre proteína de mosca-soldado-negro e diferentes cenários de produção, mostrando a influência da matriz energética e da alimentação dos insetos sobre o impacto ambiental.
Journal of Cleaner Production / literatura científica sobre ACV
Análises sobre sustentabilidade da produção de insetos para alimentação mostram que os resultados ambientais dependem significativamente da matéria-prima, energia e processo produtivo adotados.
