Biometano no transporte pesado: Reiter investe em rede própria de abastecimento

Transportadora amplia frota de veículos que podem utilizar biometano e desenvolve pontos próprios de abastecimento, colocando infraestrutura, disponibilidade de combustível e custo operacional no centro da transição do transporte rodoviário.

A expansão do biometano no transporte pesado brasileiro começa a avançar juntamente com um desafio prático: garantir que o combustível esteja disponível nas rotas utilizadas pelos caminhões.

A Reiter Log está ampliando sua frota de veículos preparados para operar com gás natural e biometano e, paralelamente, desenvolvendo uma rede própria de abastecimento. A estratégia mostra como a adoção de combustíveis alternativos no transporte rodoviário depende não apenas da tecnologia dos veículos, mas também de infraestrutura, fornecimento e escala operacional.

Em agosto, a transportadora iniciou o recebimento de 220 novos caminhões a gás da Scania, com entregas previstas até dezembro. Com a aquisição, a empresa estima superar 600 veículos movidos por fontes alternativas em uma frota de aproximadamente 1.100 unidades.

Rede própria responde à disponibilidade de combustível

Um dos principais pontos da estratégia está fora dos caminhões.

Segundo informações publicadas pelo Capital Reset, a Reiter possui nove pontos próprios de abastecimento distribuídos por Rio Grande do Sul, Paraná e São Paulo. Essa rede fornece aproximadamente 3 milhões de metros cúbicos de biometano por mês à frota da companhia.

Um novo ponto está previsto em São Paulo, e a empresa avalia expansão para Santa Catarina e Centro-Oeste.

O investimento acumulado informado para essa infraestrutura é de aproximadamente R$ 100 milhões.

O caso ilustra uma característica importante do transporte movido a biometano: disponibilidade do veículo e disponibilidade do combustível precisam avançar conjuntamente.

Uma frota pode estar tecnicamente preparada para utilizar o biocombustível, mas a ausência de abastecimento em determinadas rotas pode exigir o uso temporário de gás natural ou limitar os trajetos nos quais o biometano é operacionalmente viável.

Do gás natural ao biometano

Os caminhões adquiridos pela companhia podem operar tanto com gás natural quanto com biometano.

Os dois combustíveis possuem características que permitem sua utilização nos mesmos sistemas veiculares, mas têm origens diferentes. O gás natural é fóssil, enquanto o biometano é obtido pela purificação do biogás produzido a partir da decomposição de matéria orgânica.

Na estratégia apresentada pela empresa, o gás natural pode funcionar como combustível intermediário em locais onde ainda não existe oferta suficiente de biometano.

Essa possibilidade ajuda a explicar por que a expansão da frota não significa automaticamente que todos os quilômetros percorridos pelos novos veículos serão abastecidos com biometano.

O impacto ambiental efetivo dependerá, entre outros fatores, da proporção utilizada de cada combustível, das rotas percorridas e da origem do biometano.

Produção própria entra no planejamento

Além de adquirir combustível de fornecedores, o grupo também planeja participar diretamente da produção.

Para 2027, está prevista a operação de uma unidade em Capão do Leão, no Rio Grande do Sul, desenvolvida por uma joint venture entre a Estancia Del Sur, ligada ao grupo Reiter, e a Geo Biogás & Carbon.

A capacidade inicial prevista é de aproximadamente 400 mil metros cúbicos de biometano por mês, utilizando resíduos agrícolas do próprio grupo como matéria-prima.

O investimento divulgado para o projeto é de cerca de R$ 120 milhões. A instalação também prevê produção de biofertilizantes.

Essa integração entre geração do combustível e consumo na logística apresenta uma possibilidade diferente de organização da cadeia.

Empresas que geram resíduos orgânicos ou atuam próximas a produtores de biometano podem avaliar modelos nos quais combustível, infraestrutura e demanda estejam geograficamente conectados.

Logística influencia a viabilidade

A localização é um fator particularmente importante para o biometano.

Estudo publicado pela Empresa de Pesquisa Energética em junho de 2026 analisou justamente alternativas para levar biometano de pontos de produção até regiões consumidoras por meio de gás natural comprimido transportado por caminhões.

A EPE avalia aspectos de logística, custos e emissões, reconhecendo que soluções rodoviárias podem complementar a infraestrutura de gasodutos e conectar produtores a consumidores que não estejam diretamente atendidos pela malha existente.

A distância entre produção e consumo, contudo, influencia o custo final.

Isso significa que o potencial nacional de produção de biometano não se traduz automaticamente em disponibilidade competitiva em qualquer região do país.

Para frotas pesadas, o planejamento precisa considerar conjuntamente locais de abastecimento, autonomia dos veículos, rotas, volume contratado e segurança de fornecimento.

Frota também passa por diversificação tecnológica

A estratégia da Reiter não está concentrada exclusivamente no biometano.

A transportadora também iniciou a operação do primeiro cavalo mecânico elétrico da Scania comercializado no Brasil. Segundo a Transporte Moderno, a empresa utiliza diferentes tecnologias de acordo com as características das operações, incluindo modelos a gás e biometano, híbridos e elétricos.

Essa combinação evidencia uma tendência importante no transporte pesado: diferentes aplicações podem demandar soluções distintas.

Veículos elétricos podem apresentar características adequadas para algumas rotas urbanas e dedicadas, enquanto operações rodoviárias de longa distância apresentam requisitos próprios de autonomia, abastecimento e carga transportada.

Por isso, a transição do setor tende a ser analisada também sob a perspectiva do custo total de operação, e não apenas do combustível ou da tecnologia isoladamente.

Infraestrutura passa a fazer parte da decisão de investimento

A ampliação do biometano no transporte rodoviário coloca uma série de variáveis na mesma equação.

Além do custo dos caminhões, precisam ser considerados o abastecimento, contratos de fornecimento, manutenção, utilização da frota, valor residual dos veículos e disponibilidade do combustível nas rotas.

A própria Empresa de Pesquisa Energética vem incorporando o biometano ao planejamento da infraestrutura nacional de gás.

O Plano Nacional Integrado das Infraestruturas de Gás Natural e Biometano considera instalações de produção, processamento, transporte e distribuição por gás comprimido ou liquefeito, buscando analisar conjuntamente oferta, demanda e conexão entre diferentes regiões.

O caso da Reiter mostra, portanto, que a discussão sobre descarbonização do transporte pesado está avançando para além da escolha do combustível.

Para ampliar escala, será necessário conectar produção, infraestrutura, frota, contratos e demanda de maneira economicamente viável.

Nesse contexto, redes próprias de abastecimento representam uma das alternativas atualmente utilizadas para superar limitações de infraestrutura em operações com volume e rotas suficientemente previsíveis.

Fontes pesquisadas

Capital Reset — 26/08/2026
“Para trocar gás por biometano, Reiter constrói sua própria infraestrutura”, por Letícia Arcoverde. Fonte principal sobre os nove pontos de abastecimento, volume mensal de biometano, investimentos em infraestrutura e projeto de produção própria.

Transporte Moderno — 25/08/2026
“Reiter compra 220 caminhões a gás e estreia Scania elétrico”, por Valeria Bursztein. Referência para a aquisição dos veículos, composição da frota e diversificação das tecnologias utilizadas no transporte.

Empresa de Pesquisa Energética — 26/06/2026
“Transporte de Gás Natural Comprimido – Estudo de Caso do Biometano no Brasil”. Estudo técnico sobre logística, custos e emissões associados ao transporte de biometano até os pontos de consumo.

Empresa de Pesquisa Energética — PNIIGB
Plano Nacional Integrado das Infraestruturas de Gás Natural e Biometano, que trata do desenvolvimento coordenado da oferta, demanda e infraestrutura do setor no Brasil.

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