Ferramentas preditivas começam a complementar protocolos tradicionais de emergência, permitindo que empresas acompanhem ameaças relacionadas a secas, enchentes, queimadas e alterações nas cadeias de fornecimento.
A intensificação do El Niño em 2026 está ampliando a atenção das empresas para ferramentas capazes de identificar riscos climáticos antes que seus impactos cheguem às operações.
Na Natura, uma das iniciativas adotadas é o Radar de Riscos Socioclimáticos, plataforma desenvolvida em parceria com a startup MeteoIA. A solução utiliza inteligência artificial para analisar informações climáticas e apoiar o mapeamento de possíveis impactos sobre operações, fornecedores, consultoras e comunidades relacionadas às cadeias produtivas da companhia.
O movimento ocorre em um contexto de maior atenção ao fenômeno climático. No fim de julho, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) já projetava um El Niño forte e com possibilidade de intensificação entre agosto e outubro de 2026, acompanhado de mudanças relevantes nos padrões de temperatura e precipitação em diferentes regiões.
A discussão não está apenas na capacidade de prever o clima. Para as empresas, a questão é como transformar essas informações em decisões relacionadas a continuidade dos negócios, cadeia de suprimentos, pessoas e infraestrutura.
Da reação à antecipação de riscos
A Natura mantém desde 2020 um Protocolo de Calamidades para situações como enchentes, queimadas e secas extremas. De acordo com informações fornecidas pela companhia à Exame, o protocolo já havia sido acionado mais de 30 vezes.
A principal mudança trazida pelas ferramentas preditivas está na possibilidade de complementar a resposta emergencial com uma etapa anterior de monitoramento.
Em vez de trabalhar apenas depois que determinado evento climático acontece, dados meteorológicos e modelos de inteligência artificial podem indicar regiões e operações potencialmente mais expostas, criando uma janela adicional para preparação.
Isso não significa prever com exatidão onde e como um evento extremo ocorrerá.
Modelos climáticos trabalham com probabilidades e cenários. A própria Organização Meteorológica Mundial ressalta que a intensidade global de um episódio de El Niño não determina automaticamente a magnitude de seus impactos em uma região específica.
Por isso, o uso empresarial dessas informações tende a funcionar melhor como instrumento de gestão de risco e planejamento, e não como previsão absoluta.
Cadeias de fornecimento também entram no monitoramento
Outro ponto relevante está fora dos limites físicos de fábricas e centros de distribuição.
A Natura utiliza ainda uma plataforma de informações geográficas, a Natura-GIS, para acompanhar ativos da sociobiodiversidade e períodos de safra relacionados às matérias-primas utilizadas pela companhia.
Essa dimensão é especialmente importante porque eventos climáticos podem atingir uma organização de forma indireta.
Uma seca pode modificar a disponibilidade de uma matéria-prima. Chuvas intensas podem afetar logística e acesso a determinada região. Incêndios podem comprometer cadeias produtivas mesmo quando instalações próprias da empresa permanecem operacionais.
Assim, a análise do risco climático passa a considerar não apenas os ativos da companhia, mas também fornecedores, territórios e etapas críticas da cadeia de valor.
El Niño amplia necessidade de planejamento
No Brasil, os efeitos associados ao El Niño variam de acordo com a região.
O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) explica que o fenômeno historicamente está associado a maior risco de seca em áreas das regiões Norte e Nordeste e a volumes elevados de chuva no Sul do país.
Essas características tornam a gestão de risco particularmente relevante para empresas com operações distribuídas pelo território nacional ou cadeias dependentes de recursos naturais.
Na atualização disponível em 31 de julho, a OMM já apontava maior probabilidade de temperaturas acima da média em várias partes do mundo e mudanças relevantes nos regimes de chuva durante o segundo semestre.
Posteriormente, em atualização publicada em 3 de setembro, a organização confirmou que o El Niño estava estabelecido e projetou probabilidade próxima de 100% de sua continuidade até fevereiro de 2027, com possibilidade de atingir intensidade muito forte. A entidade também ressalvou que impactos concretos precisam ser analisados regionalmente.
Tecnologia amplia informação disponível para decisões
O uso de inteligência artificial em risco climático faz parte de um movimento mais amplo de integração entre dados ambientais e gestão empresarial.
Modelos podem reunir previsões meteorológicas, localização de ativos, condições de fornecedores e informações históricas para identificar exposições e apoiar a definição de prioridades.
O valor dessas ferramentas, entretanto, depende também da qualidade dos dados utilizados, dos critérios estabelecidos pela organização e da integração das análises com processos decisórios.
O desafio não é apenas receber um alerta, mas definir antecipadamente o que fazer diante dele.
Isso pode envolver revisão de estoques, rotas alternativas de logística, continuidade do fornecimento, comunicação com equipes, proteção de ativos ou preparação de comunidades localizadas em áreas mais vulneráveis.
Risco climático avança para a gestão operacional
O caso ajuda a mostrar como a adaptação climática está se aproximando das estruturas tradicionais de gestão de riscos.
Eventos como secas, enchentes, ondas de calor e queimadas podem afetar diferentes dimensões de uma organização. Por isso, informações climáticas começam a ser relacionadas a continuidade de negócios, cadeia de suprimentos, logística, seguros, gestão financeira e planejamento operacional.
A inteligência artificial amplia a capacidade de processar informações e construir cenários, mas não elimina as incertezas inerentes ao clima.
Para as empresas, a oportunidade está justamente em utilizar essas informações para aumentar o tempo disponível entre a identificação de um risco e a necessidade de responder a ele.
Nesse sentido, a adaptação deixa de ser tratada apenas como reação a um evento extremo e passa a integrar o planejamento sobre onde estão as principais vulnerabilidades e quais ações podem reduzir seus impactos.
Fontes pesquisadas
Exame — 31/08/2026
“Na Natura, inteligência artificial antecipa riscos do El Niño na operação”, por Letícia Ozório. Fonte principal sobre o Radar de Riscos Socioclimáticos, Natura-GIS e Protocolo de Calamidades.
Organização Meteorológica Mundial (OMM) — 31/07/2026
Strong El Niño expected to intensify. Atualização sobre o fortalecimento do El Niño e possíveis alterações nos padrões globais de temperatura e precipitação.
Organização Meteorológica Mundial (OMM) — 03/09/2026
El Niño/La Niña Update — August 2026. Atualização posterior à reportagem que confirmou o estabelecimento do fenômeno e a expectativa de continuidade até 2027.
Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) — 26/03/2026
“El Niño em 2026?”. Referência sobre os efeitos normalmente associados ao fenômeno nas diferentes regiões brasileiras.
