Financiamento climático global: China amplia espaço e África enfrenta alto custo de capital

O financiamento climático global está passando por uma transformação que envolve não apenas metas ambientais, mas também acesso ao capital, desenvolvimento tecnológico e capacidade de investimento.

Mudanças na participação dos Estados Unidos na agenda climática internacional, maior presença chinesa em tecnologias de energia limpa e diferenças no acesso ao crédito colocam o financiamento no centro da transição energética global.

Em entrevista publicada pela Exame em 19 de agosto, Lisa Sachs, diretora do Columbia Center on Sustainable Investment (CCSI), analisou como mudanças recentes na participação dos Estados Unidos nas estruturas internacionais de cooperação climática vêm ocorrendo paralelamente à expansão da presença chinesa em tecnologias e financiamento relacionados à transição energética.

Ao mesmo tempo, permanece uma questão estrutural para diversos países africanos: o custo para financiar projetos de energia limpa continua significativamente superior ao observado em economias desenvolvidas e na China.

O cenário evidencia que a disponibilidade global de recursos é apenas uma parte da equação. As condições pelas quais empresas e governos conseguem acessar esses recursos também são determinantes para viabilizar novos investimentos.

China amplia presença na cadeia de energia limpa

A China ocupa posição relevante nas cadeias globais associadas à transição energética, especialmente em segmentos como energia solar, baterias, veículos elétricos e equipamentos utilizados na geração de energia renovável.

Essa presença industrial também vem se refletindo nos fluxos internacionais de investimento.

Na análise apresentada pela Exame, Lisa Sachs observa que a mudança na participação dos Estados Unidos na agenda climática internacional abriu espaço para uma presença chinesa mais significativa em diferentes mercados.

O movimento ocorre em um setor que combina política energética, desenvolvimento industrial, inovação tecnológica e financiamento.

A expansão, entretanto, não significa que um único país passe a determinar os rumos da transição. O financiamento de projetos climáticos permanece distribuído entre governos, empresas, instituições financeiras, investidores privados e organismos multilaterais.

Por isso, mais do que uma substituição direta de protagonismo, o momento aponta para uma reorganização das relações econômicas ligadas à transição energética.

Financiamento continua sendo uma barreira para países africanos

Enquanto a estrutura internacional se transforma, diversos países africanos ainda enfrentam dificuldades para ampliar investimentos em energia.

A África reúne aproximadamente 20% da população mundial, mas recebe menos de 3% dos investimentos globais no setor energético, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA).

O potencial para expansão é significativo. O continente possui recursos solares, eólicos, hídricos e minerais relevantes e apresenta demanda crescente por infraestrutura energética.

Um dos principais desafios, entretanto, está nas condições de financiamento.

Análises da IEA e do Banco Africano de Desenvolvimento indicam que o custo de capital para projetos de geração de energia limpa em escala comercial em países africanos pode ser duas a três vezes maior do que o registrado em economias avançadas e na China.

Essa diferença afeta diretamente a viabilidade financeira dos projetos.

Empreendimentos de energia solar ou eólica, por exemplo, costumam exigir investimentos elevados no início do projeto. Quanto maior a taxa exigida para financiar esse capital, maior tende a ser o custo total do empreendimento.

O que determina o custo de capital

O custo de financiamento não depende apenas da tecnologia adotada.

Entre os fatores considerados por investidores e instituições financeiras estão condições macroeconômicas, risco soberano, estabilidade cambial, ambiente regulatório, disponibilidade de garantias e maturidade dos mercados financeiros locais.

A IEA estima que projetos solares de grande escala no Quênia e no Senegal apresentam custo médio ponderado de capital entre 8,5% e 9%.

Em mercados da Europa e da América do Norte analisados pela agência, as taxas ficam aproximadamente entre 4,7% e 6,4%.

A comparação ajuda a demonstrar o peso do financiamento sobre projetos que, tecnologicamente, podem utilizar equipamentos semelhantes.

Por esse motivo, a discussão sobre transição energética está cada vez mais relacionada à criação de mecanismos capazes de tornar projetos financeiramente viáveis.

Investimento privado em energia limpa cresce

Apesar das limitações, os investimentos privados em energia limpa no continente africano avançaram nos últimos anos.

Segundo a IEA, o volume passou de aproximadamente US$ 17 bilhões em 2019 para quase US$ 40 bilhões em 2024.

A evolução acompanha a redução global dos custos de algumas tecnologias renováveis e o aumento do interesse por projetos de geração de baixo carbono.

Ao mesmo tempo, o financiamento público e de instituições de desenvolvimento destinado a projetos de energia na África diminuiu aproximadamente um terço ao longo de uma década, chegando a cerca de US$ 20 bilhões em 2024.

O cenário aumenta a relevância de estruturas que combinem diferentes fontes de recursos.

Garantias, crédito em condições diferenciadas, financiamento multilateral, capital privado e estruturas de blended finance estão entre os instrumentos utilizados para reduzir riscos e ampliar a capacidade de investimento.

Transição energética também é uma questão financeira

A discussão evidencia uma mudança importante na agenda climática.

O desafio não está apenas em identificar tecnologias capazes de reduzir emissões ou ampliar a oferta de energia renovável. Também é necessário construir condições financeiras que permitam transformar projetos tecnicamente viáveis em investimentos economicamente executáveis.

Para empresas e investidores, isso amplia o conjunto de variáveis que precisam ser analisadas.

Custo de capital, exposição cambial, estrutura de financiamento, localização dos investimentos, infraestrutura disponível e estabilidade regulatória podem influenciar significativamente o retorno de projetos ligados à transição energética.

A mudança no cenário internacional envolvendo Estados Unidos e China acrescenta uma dimensão geopolítica a essa análise, mas não elimina os desafios financeiros existentes em mercados emergentes.

Nesse contexto, a evolução do financiamento climático dependerá cada vez mais da capacidade de aproximar capital disponível, projetos estruturados e condições financeiras compatíveis com investimentos de longo prazo.

Fontes pesquisadas

Exame — 19/08/2026
“Clima sem os EUA fortaleceu a China e não mudou a conta da África, diz diretora de Columbia”, entrevista com Lisa Sachs, diretora do Columbia Center on Sustainable Investment.

International Energy Agency (IEA) + African Development Bank
Financing Clean Energy in Africa. Estudo sobre investimentos, custo de capital e mecanismos de financiamento para projetos de energia limpa no continente africano.

International Energy Agency (IEA) — 2025
How a high cost of capital is holding back energy development in Kenya and Senegal. Dados comparativos sobre custo médio ponderado de capital para projetos de energia.

International Energy Agency (IEA) — World Energy Investment 2025
Dados sobre a evolução do investimento privado e do financiamento público e de instituições de desenvolvimento no setor energético africano.

UN Climate Change — 08/01/2026
Informações institucionais relacionadas à decisão dos Estados Unidos de se retirar da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima.

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