Recuperação judicial em alta: o que causa a crise e como navegar a solução

O ambiente de negócios brasileiro tem apresentado sinais claros de estresse. Nos primeiros sete meses de 2023, os pedidos de recuperação judicial (RJ) cresceram 55,8% em comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo dados da Serasa Experian. Paralelamente, a pesquisa PINAD revelou que quase 600.000 empresas fecharam as portas nos últimos dois anos.

O que está por trás desses números e o que diferencia as empresas que perecem daquelas que conseguem se reerguer? Em um episódio recente do podcast Baker Talks, os especialistas Frank Kodama, sócio da FK Consulting Pro, e Marcelo Sartori, sócio da Sartori Sociedade de Advogados, analisaram o cenário e desmistificaram a recuperação judicial como ferramenta de gestão.

O cenário pós-pandemia: a conta chegou

A explicação para a alta nos pedidos de recuperação judicial começa alguns anos antes. Durante a pandemia de Covid-19, um esforço conjunto entre empresas, bancos e credores permitiu a renegociação de dívidas e a postergação de obrigações, criando um fôlego financeiro essencial para a sobrevivência de muitas operações.

No entanto, a retomada econômica não ocorreu no ritmo otimista esperado. “A consequência é que, com a devida renegociação das obrigações e a não retomada esperada, as contas chegam”, aponta Frank Kodama. A esse fator, somam-se a inflação, crises globais e o aumento dos custos operacionais, esgotando a capacidade das empresas de absorver novas rodadas de negociação e empurrando-as para uma situação de insolvência.

Recuperação judicial: quando a empresa pede ajuda?

A crise raramente é súbita. Ela emite sinais que, muitas vezes, são ignorados pela gestão. Marcelo Sartori destaca que “a contabilidade é uma gávea de vigilância que o empresário pode ter”. Os principais indicadores de alerta incluem:

  • Endividamento excessivo: a obrigação mensal com pagamentos financeiros começa a sufocar o caixa.
  • Atraso de obrigações: dificuldade em honrar o pagamento de tributos, encargos, fornecedores e até mesmo salários.

  • Problemas de precificação e lucratividade: muitas empresas, embora vendam muito, operam com margens negativas. “Tem muita gente que vende muito e, quanto mais vende, pior fica”, reforça Sartori.

  • Falta de planejamento financeiro: a gestão de “bolso esquerdo para bolso direito”, sem uma visão de futuro, torna a empresa extremamente vulnerável a qualquer instabilidade no mercado.

O fator humano: a solidão e a “Síndrome do Avestruz”

Por trás da análise técnica, existe um componente psicológico decisivo. O empreendedor, por natureza, é otimista e acredita em sua capacidade de superar desafios. “Ele tem que pensar desse jeito, senão a gente não teria os empreendedores de sucesso”, comenta Kodama.

O perigo, segundo ele, é quando essa autoconfiança se transforma em cegueira. A posição de liderança é solitária, e o gestor pode acabar sofrendo da “síndrome do avestruz”: colocar a cabeça em um buraco, esperando que os problemas se resolvam sozinhos. Essa demora na tomada de decisão agrava a crise e diminui as chances de recuperação.

O sucesso da recuperação: mais que um instrumento jurídico

Apenas 20% das empresas que entram em recuperação judicial conseguem, de fato, se reerguer. Por quê? A resposta unânime dos especialistas é que o sucesso não está no instrumento jurídico em si, mas no que a empresa faz com o fôlego que ele proporciona.

A recuperação judicial não é uma solução mágica, mas uma oportunidade para executar um plano de turnaround sério e profundo. Os fatores que determinam o sucesso são:

  1. Diagnóstico técnico: entender a raiz do problema, seja ela operacional, comercial ou financeira. A maioria das empresas não domina sua estrutura de custos e precificação.

  2. Execução do plano: a reestruturação exige parar de “fazer mais do mesmo”. É preciso corrigir processos, reduzir custos, melhorar a governança e, se necessário, mudar o modelo de negócio.

  3. Assessoria especializada: contar com consultores e advogados familiarizados com as melhores práticas aumenta drasticamente as chances de sucesso, além de blindar o empresário do estresse da negociação direta com credores.

Como resume Frank Kodama, “se a empresa não fica atenta à tecnologia, não fica atenta ao mercado e não se adapta, ela morre”. A recuperação judicial é a ferramenta que concede o tempo necessário para essa adaptação. É um instrumento de sobrevivência, não um atestado de fracasso, e seu uso estratégico é fundamental para a saúde e a perenidade do ambiente de negócios no Brasil.

Para uma análise completa e detalhada, com discussões sobre as particularidades da lei para PMEs, o impacto na vida pessoal dos sócios e o futuro do cenário econômico, ouça o episódio do podcast Baker Talks na íntegra.

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