Os rápidos avanços em inteligência artificial (IA) e automação estão transformando os alicerces das empresas de médio porte em todo o mundo, com a velocidade das mudanças tecnológicas colidindo com uma crescente escassez global de profissionais experientes.
Essa tensão entre a aceleração da IA e da automação e a crescente escassez de profissionais com habilidades especializadas deverá se tornar o principal desafio para os líderes do mercado intermediário na próxima década, de acordo com o relatório “O labirinto do mercado intermediário “, publicado hoje pela Baker Tilly International. Essa escassez de talentos foi citada por 60% dos entrevistados como o maior obstáculo ao crescimento do mercado intermediário até 2035.
O estudo, baseado em planejamento de cenários e pesquisa de opinião detalhada realizada com 1.500 CEOs e outros executivos de empresas de médio porte com faturamento entre US$ 50 milhões e US$ 1 bilhão em nove mercados líderes globais, mostra que, embora as organizações estejam investindo pesadamente em IA, automação e transformação digital, elas temem que essas mesmas tecnologias possam prejudicar o desenvolvimento dos futuros líderes.
- Líderes de empresas de médio porte em todo o mundo afirmam que a competição por talentos especializados se tornará o maior obstáculo ao crescimento na próxima década.
- O equilíbrio entre tecnologia e talento será fundamental para garantir que o valor humano não seja negligenciado.
- Um futuro moldado por regulamentações prescritivas e acesso restrito a recursos suscita grandes preocupações.
Equilibrar a transformação tecnológica e o valor humano
Mais da metade dos executivos (57%) prevê uma crise de liderança à medida que a tecnologia remodela ou substitui os cargos de nível inicial e intermediário que antes serviam como campo de treinamento para talentos seniores.
“A IA e a automação estão reescrevendo rapidamente os modelos de negócios, mas também impactando o desenvolvimento da próxima geração de líderes”, disse Francesca Lagerberg, CEO da Baker Tilly International. “As empresas de médio porte precisam encontrar um novo equilíbrio, no qual a automação acelere a inovação sem comprometer a capacidade humana. Afinal, os valores humanos serão ainda mais importantes, e não menos, em um mundo saturado de tecnologia.”
A volatilidade política e o foco no curto prazo serão a norma em 2035
O relatório identifica um futuro, descrito como “A crise da conformidade”, como o cenário que melhor se alinha às expectativas dos líderes em relação ao que está por vir. Trata-se de um ambiente definido por regulamentações rigorosas e prescritivas, além de acesso restrito aos recursos vitais que impulsionam o crescimento dos negócios, desde o acesso a capital, mão de obra especializada e energia, até matérias-primas e componentes.
A volatilidade política já está moldando esse futuro. Mais de um terço das organizações (35%) em todo o mundo afirmam ter adiado ou cancelado grandes investimentos devido a mudanças rápidas nas diretrizes políticas. Na Alemanha, onde os líderes relatam intensa pressão regulatória, esse número sobe para 41%, o mais alto entre todos os países pesquisados. Em comparação, as empresas nos Emirados Árabes Unidos relatam a menor taxa de interrupção, com apenas 30% adiando investimentos devido a oscilações políticas.
A conformidade fica em segundo plano
Líderes empresariais esperam que as mudanças políticas voláteis, impulsionadas pela oscilação política, se tornem mais acentuadas, com 6 em cada 10 prevendo um ritmo crescente de mudanças regulatórias na próxima década e apenas 18% antecipando uma desaceleração.
No contexto atual de crescente exigência de conformidade, as organizações enfrentam regras rígidas, porém em constante mudança. Contudo, a pesquisa da Baker Tilly indica que, embora os líderes estejam preocupados com um futuro hiper-regulamentado, ainda não estão dando à conformidade a prioridade necessária.
A conformidade regulatória e a governança estão no final da lista de prioridades de investimento atuais das organizações, juntamente com a sustentabilidade e as iniciativas ambientais, sociais e de governança (ESG): 21% dos líderes afirmam que nenhuma delas é uma prioridade para suas organizações.
Muitas organizações podem estar subestimando a rapidez com que a regulamentação relacionada à IA está evoluindo e o quanto ela irá remodelar os requisitos operacionais, de dados e de governança. Aquelas que não desenvolverem capacidades de conformidade agora poderão ter dificuldades para acompanhar o ritmo à medida que o escrutínio regulatório se intensifica, principalmente na área de tecnologia.
O segmento de mercado intermediário está bem posicionado, mas será que são líderes?
Embora a próxima década prometa turbulências, o relatório destaca que o mercado de empresas de médio porte possui vantagens inerentes. Os executivos ressaltam a agilidade na tomada de decisões, o acesso mais direto à alta administração, a menor burocracia e a maior capacidade de adaptação como pontos fortes estruturais que permitem às empresas de médio porte se reinventarem e inovarem rapidamente em condições voláteis. Essas qualidades, sugere o relatório, podem ser decisivas em um mundo onde as diretrizes regulatórias mudam rapidamente e os gargalos de recursos surgem sem aviso prévio.
No entanto, o relatório também faz um alerta claro sobre a prontidão da liderança. Embora a grande maioria dos líderes concorde que habilidades como comunicação eficaz, julgamento ético e a capacidade de liderar em meio à incerteza serão essenciais até 2035, poucos entrevistados as identificam como pontos fortes pessoais atualmente.
Apenas 5% dos líderes classificam a tomada de decisões éticas entre suas três principais competências, apesar de quase três quartos (73%) acreditarem que ela será um diferencial crucial no futuro. Os executivos também reconhecem que a resiliência, outro atributo essencial para lidar com a volatilidade, é subestimada e pouco desenvolvida em suas equipes de liderança.
Francesca conclui: “A década até 2035 exigirá uma nova forma de liderança: uma que saiba aproveitar a tecnologia sem perder de vista o valor humano, que aja com decisão diante da incerteza e que antecipe a mudança em vez de reagir a ela. As organizações bem-sucedidas serão aquelas que investirem desde cedo em capacitação e cultura, construindo resiliência por meio de uma governança sólida, visão estratégica e parcerias de confiança.”
