Conheça o case brasileiro da Combio que descarboniza a energia térmica da indústria com biomassa
Enquanto o Brasil avança em uma matriz elétrica predominantemente limpa, um ponto cego persiste como um dos maiores desafios para a agenda de descarbonização do país: a energia térmica utilizada pela indústria. Responsável por mover caldeiras e gerar o vapor essencial para incontáveis processos produtivos, essa energia ainda é, em grande parte, gerada a partir de combustíveis fósseis.
Nesse cenário, a Combio, uma empresa 100% brasileira, não apenas identificou essa lacuna, mas desenvolveu um modelo de negócio pioneiro para solucioná-la. Atuando como referência nacional na geração de energia verde a partir de biomassa, a empresa oferece uma solução completa que engloba economia circular, transição energética e descarbonização.
O podcast Baker Talks conversou com Roberto Veras, Diretor de Sustentabilidade e Comunicação da Combio, para aprofundar como esse modelo funciona na prática.
O ponto cego da indústria: energia térmica vs. elétrica
O primeiro ponto para entender a solução da Combio é diferenciar as matrizes energéticas. Em 2023, mais de 90% da energia elétrica do Brasil veio de fontes renováveis (hidrelétrica, eólica, solar). Contudo, a energia térmica — o calor, o vapor gerado na clássica chaminé industrial — conta outra história. Estima-se que entre 80% e 90% das indústrias brasileiras ainda dependam de combustíveis fósseis para essa finalidade.
A biomassa surge como a principal alternativa viável, pois, diferentemente de fontes como solar e eólica, ela envolve a queima de um combustível para gerar calor. O desafio? Empresas dos setores de mineração, pneus, alimentos ou química não possuem acesso direto à biomassa, como ocorre no setor sucroalcooleiro.
Roberto Veras: “O grande vilão das indústrias hoje é a energia térmica. A eletricidade é quase ponto pacífico, está resolvido. Mas a energia térmica precisa queimar um combustível, e a biomassa acaba sendo, em vários casos, a única alternativa viável para fazer a transição energética para uma matriz limpa.”

A Solução: Energia como Serviço (Energy as a Service)
A inovação da Combio não foi apenas usar biomassa, mas sim o modelo de negócio construído ao redor dela. Ao invés de vender biomassa, a empresa vende a energia já produzida.
O modelo funciona assim:
- Investimento zero pelo cliente: a Combio arca com todo o CAPEX, comprando e instalando uma caldeira de biomassa de última geração dentro da planta do cliente.
- Operação completa: a equipe da Combio assume toda a operação, manutenção, licenciamento e gestão da caldeira.
- Gestão da cadeia de biomassa: a empresa desenvolve uma rede de fornecedores locais para garantir o abastecimento contínuo e sustentável da biomassa.
- Circularidade: a Combio gerencia a destinação correta dos resíduos, como as cinzas, que retornam ao campo como fertilizante, fechando o ciclo da economia circular.
Para o cliente, os benefícios são claros: descarbonização de até 70% ou mais das emissões de uma fábrica, sem a necessidade de investimento, expertise técnica ou preocupação com a complexa logística da biomassa.
A riqueza local: de caroço de açaí a pomares erradicados
A biomassa é uma solução inerentemente local. Seu transporte por mais de 150 km se torna economicamente e ambientalmente inviável. A expertise da Combio está em identificar e utilizar os resíduos agroindustriais disponíveis em cada região, muitos deles anteriormente subutilizados.
- No Pará: Caroço de açaí.
- No Rio Grande do Sul: Casca de arroz.
- Em São Paulo: Bagaço de cana, pó de serra, casca de eucalipto e até madeira de erradicação de pomares (laranja, etc.) que antes era queimada a céu aberto.
Essa abordagem não só viabiliza os projetos, como também cria valor para resíduos que seriam um passivo ambiental, reforçando a economia local.

O futuro é regulado: o impacto do mercado de carbono
Até 2020, a principal motivação para a troca era a redução de custos. Com a onda ESG e a urgência climática, a descarbonização tornou-se o principal driver, atraindo clientes multinacionais pressionadas por metas globais.
Agora, o cenário que era uma expectativa na época da gravação do podcast tornou-se realidade. Em um avanço histórico, o Congresso Nacional aprovou em dezembro de 2023 o projeto de lei que institui o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE). A legislação, que aguarda sanção presidencial para entrar em vigor, estabelece o esperado mercado regulado de carbono no país.
Os pontos-chave da nova regulação confirmam a análise de Roberto Veras:
- Modelo “Cap-and-Trade”: empresas que emitirem abaixo de suas metas poderão vender o excedente de “cotas” para aquelas que não conseguirem atingir seus objetivos.
- Obrigatoriedade: a regulamentação será obrigatória para empresas que emitam acima de 25.000 toneladas de CO2 por ano, um patamar que abrange grande parte do parque industrial brasileiro.
- Setor agropecuário: conforme o debate da época, a produção primária agropecuária ficou de fora da obrigatoriedade inicial, mas poderá participar do sistema de forma voluntária, gerando e comercializando créditos de carbono.
Com isso, a busca por soluções como a da Combio deixa de ser apenas uma ação voluntária ou de imagem e passa a ser uma necessidade estratégica e regulatória para grande parte da indústria nacional.
Rumo ao Futuro: Desafios e Metas Ambiciosas
Com 10 grandes projetos em operação, a Combio evita a emissão de quase 800.000 toneladas de CO2 por ano — o equivalente a neutralizar as emissões da cidade de São Paulo por 20 dias. A meta, segundo Veras, é chegar a “um mês” e, um dia, sonhar com o equivalente a “um ano”.
O caminho exige superar desafios como o longo tempo de maturação de cada contrato (que pode levar de 4 a 5 anos da primeira reunião à operação), mas o cenário de urgência climática e a nova regulação de carbono indicam uma aceleração inevitável.
A jornada da Combio demonstra que é possível alinhar impacto ambiental positivo, inovação tecnológica e um modelo de negócio robusto e escalável, oferecendo um caminho concreto para a descarbonização da indústria brasileira.
Gostou deste case? Ouça a conversa completa com Roberto Veras no podcast Baker Talks e aprofunde-se nos detalhes deste modelo de negócio inovador.

